02 abril, 2007

Scorcese não piorou

Não, não piorou. Nem Woody Allen. Nem Spielberg, nem Clint Eastwood. Sofia Coppola mal começou, não está decaindo. Parem de falar besteiras.

Há um tempo, já, que noto essa iconoclastia do povo: "Olha, desde Goodfellas Scorcese nunca mais foi o mesmo", ou "os últimos filmes do Woody Allen foram tão piores que os do início da carreira", ou ainda "Spielberg? O que ele fez depois de Tubarão é lixo". O que importa é destruir os ídolos - algo tão antigo que nem os Cristãos Ortodoxos praticam mais com tanto afinco, mas que esse tipo de gente acha que é super-pós-moderno.

É verdade que o melhor filme do Scorcese é Goodfellas (ainda não vi Touro Indomável, que pode superar), mas isso não faz que seus últimos filmes sejam ruins. O Aviador é excelente e eu realmente gostei de Os Infiltrados. Scoop é melhor que Match Point, que é melhor que Melinda e Melinda..., que, sim, são bons filmes, e falo sério. Eu nunca vi algo do Spielberg mal feito - nunca. Menina de Ouro é, sim, um bom filme. Da Sofia Coppola eu vi Lost in Translation e a Maria Antonieta, e gostei, sim, de ambos.

Mas as pessoas advogam que os melhores diretores façam cada filme melhor e mais inovador que o anterior, o que significa querer que Da Vinci não tivesse feito nada depois de pintar a Monalisa. Os diretores, como qualquer pessoa, tentam fazer uma coisa melhor que a outra, mas nem sempre dá certo. Não significa que ele esteja pior, mas que o mármore para a escultura está acabando. Não é possível fazer milhões de filmes de gangues e ter bons resultados com todos, mas um bom artista transforma uma pedra de mármore ruim na melhor escultura possível. É isso que Scorcese, Woody Allen, Spielberg, Eastwood e, agora, Sofia Coppola (que não, não considero tão boa quanto os outros de que falei, mas digna de nota por causa do preconceito que sofre) tentam fazer com cada história que têm. Ou alguém consegue imaginar uma forma melhor de filmar Men in Black?
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Devo postar com menos freqüência este mês porque estou na casa dos meus pais, em Petrolina.

29 março, 2007

Metas:

Ser tão engraçado em prosa quanto Wodehouse;
Ser tão engraçado em drama quanto Molière;
Ser tão engraçado em filmes quanto Woody Allen;
Ser tão engraçado em música quanto Tom Lehrer.
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Falando em Molière, nunca concordei tanto com uma introdução:

Les femmes savantes, esta peça de Molière, tem sido levada no Brasil com o grosseiro título de As Sabichonas. O mínimo que se pediria na tradução é preservar a ambigüidade. Se você atribui a uma mulher, ironicamente, ser erudita, sempre poderá se dirigir a ela, elogiosamente: "Aceite minha admiração, madade, a senhora é uma admirável erudita". Poderá o leitor encarar a mesma senhora dizendo-lhe "Não conheço sabichona igual"? E tua graça, Molière?

Se a tradução começa com esse título - jamais contestado, aliás, exceto pelo orador que vos fala - imaginem aonde vai o resto.

Mas a falta de percepção de títulos - não é implicância intelectualóide, é impaciência com grosseria que já mostra a qualidade do resto a seguir - é espantosa. A peça, supervalorizada, de Tennessee Wiliams, Cat in a hot tin roof, que traduzi, corretamente, como Gata em telhado de zinco quente, tem sido levada sempre, no Brasil, com o título nonsense de Gata em teto de zinco quente.

Sem se advertirem, tradutores, resenhistas, atores e diretores, de que não se trata de um erro trivial. É um erro ridículo. Gata em teto é, na melhor das hipóteses, um lustre vagabundo, de mau gosto. Sem falar que eu nunca vi, em casa burguesa - como é a da peça - um teto de zinco. Telhado, sim. E é nesse telhado que saltita (o título sugere o saltitar nervoso de uma gata em cio incontido), a gata. "Sencillo, non, mamita?"

Pra só ficar nisso e não ficar só aí, há pouco - escrevo em novembro de 2002 - lançou-se no Brasil o último filme de Stanley Kubrick, com o título provocador de Eyes wide shut. Pois bem, não sabendo traduzir o título, ou nem sequer percebendo o que estava escrito, os tradutores colocaram em português: Olhos bem fechados. Kubrick que, prudentemente, tinha morrido meses antes, mesmo assim deu três voltas no túmulo. O que ele queria dizer era: Olhos escancaradamente fechados.


Millôr, para "As eruditas".

Eu deixo aqui uma observação que, melhor ou pior traduzido, o filme de Kubrick não deixa de ser péssimo.

28 março, 2007

As maravilhas do mundo moderno

Sabe, não entendo que façam eleições pras sete maravilhas do mundo moderno. Os gregos não decidiram por votação, e todos concordam até hoje quanto às suas maravilhas - vamos ter que eleger outras daqui a quatro anos? Vale reeleição ou vão dizer que é despotismo? Acho que a democracia já afetou mais coisas do que devia.

Por exemplo, a Dunkin' Donuts não concorre ao cargo?

26 março, 2007

Eu em cinema

A turma de "Oficina de Textos", na faculdade, lançou um blog com as resenhas e ensaios dos alunos. O blog está aqui, os meus textos são estes, os melhores. Vão lá e divirtam-se com minhas opiniões lançadas ao acaso, prontas para furar os olhos dos chatos que tentarem me criticar.

Vocês também podem ler alguns textos ruins dos outros, se tiverem disposição para isso.

24 março, 2007

Conhecimento e depressão, um post sério

Sabe, cansei. Cansei de sair de casa e ser desafiado a responder "de onde viemos", "pra onde vamos", "qual o nosso objetivo na Terra" e outras paspalhices que algumas pessoas consideram altamente intelectuais e que não passam de desculpas para desenvolver uma depressão e poder se viciar em Zetron. Cansei de me dizerem que o mundo é uma prisão e que a única forma de se tornar livre é a morte. Isso é uma desculpa para transformar o seu futuro suicídio em uma atitude forte, nobre, em busca da liberdade.

Não adianta responder às perguntas, qualquer resposta será igualmente válida, porque é impossível convencer essas pessoas de qualquer coisa e porque realmente é impossível responder com objetividade a todas elas. Essas perguntas deveriam torturam tanto o homem quanto "quem veio antes, o ovo ou a galinha?". São perguntas sem resposta e devem ser tratadas assim. Até porque, mesmo que respondamos, isso não alterará em nada os fatos de que viemos, de que estamos aqui, de que inevitavelmente morreremos e de que vivemos de acordo com nossas vontades.

Chamar a vida de prisão é pura idiotice e aqueles que dizem isso deveriam ser internados. Se a vida fosse, de fato, uma prisão, provavelmente ele não poderia dizer tudo o que diz, fazer tudo o que faz. Se ele considera que uma prisão é um lugar onde não se pode voar ou ocupar três lugares ao mesmo tempo (ou três ocuparem o mesmo lugar ao mesmo tempo), bem, de fato, estamos presos. E não há nada que possamos fazer contra isso.

Se é assim, então porque se preocupar? Estamos presos, presos ficamos. Ao lugar de onde viemos não voltaremos e, aonde vamos, iremos de qualquer forma. O objetivo é algo mais fácil de responder: se for verdade que todos têm um objetivo pré-traçado, é igualmente verdade que seu objetivo está sendo cumprido aos poucos, com o passar de sua vida. Caso contrário, as pessoas não têm um objetivo pré-estabelecido e a pergunta se dilui como uma gota de leite em um copo de água.

Acho que essas perguntas não eram tão comuns no segundo grau. As pessoas eram mais reais, mais vivas, no segundo grau. Na faculdade as pessoas sentem atração pela morte, pela tristeza, pelas armadilhas da retórica e se rendem a elas. Lembro que no segundo grau a maior preocupação da maior parte dos estudantes era que curso fazer na faculdade. Nenhuma dúvida existencialista, nenhuma questão sem resposta. Não entendo como essas pessoas mudam tanto quando saem da escola para a universidade. E, pior: elas provavelmente mudam achando que estão se tornando melhores. Como se ser triste fosse um bem.

Há uma inversão de valores quando se muda de uma escola para uma universidade; uma inversão ruim, mas estimulada por algo bom. As pessoas buscam mais conhecimento na universidade, e isso não é ruim. Mas buscam pelo lado errado, pelo lado canastrão, talvez por despreparo intelectual, por não conseguir conceber a realidade como real, por não admitir que algumas perguntas são estúpidas. E isso é culpa dos professores, claro. Os professores que dizem que toda pergunta deve ser feita, que não existe idiotice na universidade.

Há perguntas que não precisam ser feitas, que devem ficar veladas, como a caixa de Pandora e o fruto da árvore proibida. Há conhecimentos inalcançáveis, e o homem não precisa ir atrás deles, a não ser que deseje uma depressão, o que também é comum nos cursos superiores.

Mas acredito que a depressão não é desejada antes de fazer essas perguntas, é desejada depois. Alguém se faz essa pergunta e, por não conseguir respostas, deprime-se. E trata essa depressão como normal, fruto da busca pela sabedoria. Trata como necessárias as depressões para o conhecimento, como se todo o entendimento possível fosse fruto de empirismo desenfreado, de experiências boas e ruins, simplesmente desprezando a lógica como busca inicial por respostas possíveis e por respostas prováveis. "De onde viemos?", perguntam-se, e começam a responder de inúmeras formas, infinitas tentativas sem sucesso. Depois, a depressão. Se, ao se questionarem sobre isso, simplesmente parassem para pensar "o que a resposta a isso vai mudar?", "existe uma resposta a essa pergunta?", não se entregariam com tanta facilidade a essas perguntas fúteis, muito mais fúteis que perguntar a marca da camisa do seu amigo.

Se os professores não estimulassem tanto os seus alunos a se questionar na faculdade, ou se os próprios alunos continuassem, como no ensino médio, a vaiar aqueles que fazem perguntas idiotas de falsa profundidade, o receio de perguntar continuaria na faculdade, e apenas as perguntas realmente importantes seriam feitas (ou, no mínimo, apenas elas teriam valor). Mas os professores desequilibram a balança do jogo, porque o aprendizado é uma aplicação da teoria dos jogos: "se eu aprendo isto, ganho no mercado (ou como pessoa, ou como intelectual), se aprendo aquilo, não ganho" é o pensamento inicial de um aluno, mas os professores insistem que todo conhecimento é válido, útil e deve ser buscado. Em busca de um sentido para a vida, os alunos mais volúveis se entregam à depressão. O sobrevalor dado aos professores é culpado por isso.

Professor não é mais inteligente que o aluno, na maior parte das vezes. Professor dificilmente sabe mais que o aluno, e é uma boa surpresa encontrar algum que saiba. Mas os professores são valorizados como se soubessem sempre mais, e como donos da verdade. Isso permite que eles, artificialmente, empurrem a balança do jogo para baixo, pesando mais que os ganhos com as respostas e criando uma multidão de pessoas despreparadas com ar intelectual e Zetron no bolso.

Cansei.

22 março, 2007

Se eu fosse o dono, seria melhor

Pessoas de bom humor são as mesmas que gostam de humor ruim. As pessoas de mau humor são assim chamadas porque só riem do que tem graça de fato.

O humor se divide em "humor ruim" e "humor bom". Numa nova acepção, "humor ruim" pode ser chamado de "humor brasileiro", e "humor bom" pode ser chamado simplesmente de "humor".

Daí o povo brasileiro ser tão famoso como um povo bem humorado e os americanos serem conhecidos como antipáticos.

20 março, 2007

Discutindo gosto

Qualquer pessoa tem que gostar de seu gosto. Ninguém pode assumir ter, hoje, atualmente, mau gosto. Alguém que diz ter mau gosto está assumindo gostar do que não gosta, o que é no mínimo absurdo e no máximo um absurdo grandão.

Isso não significa que os gostos das pessoas não podem mudar. Os gostos delas de cinco minutos atrás podem ser ruins, péssimos, porque ela era burra há cinco minutos e, céus, ela evoluiu muito nesse meio tempo. Ontem? Ontem era uma criança, uma criançona boba que gostava de Paulo Coelho e, e, Três ninjas contra-atacam. Mas hoje seu gosto é perfeito. Agora, no momento presente, ele é impecável. Não importa quanto você mude de opinião e saiba que vai, sim, mudar de opinião sobre algumas coisas na sua vida, enquanto não se muda, tem-se gosto impecável. E qualquer um que não goste de Chicago, Chicago, Chicago, Chicago é estúpido por não concordar com você. O mesmo pra Charlie, the Unicorn.