15 abril, 2007
14 abril, 2007
Olha a cabeleira do Voltaire
Há textos que nos valem mais que biografias, pelos quais descobrimos cada pedaço da vida do autor, cada detalhe de seu rosto, cada cicatriz e casca de ferida. Textos que mostram o suor escorrendo no rosto do escritor, suas banhas, todos os seus excessos, quando ele os tem, mas também revela beleza, nobreza, quando são essas as principais características do escritor.
Eu, por exemplo, nunca li De Profundis, mas imaginava o rosto de Oscar Wilde muito antes de ver fotos suas – aquele cabelinho comprido e a arrogância controlada do nariz de Wilde ficaram bem evidentes quando li “O retrato de Dorian Gray”, primeiro livro que li dele. O rosto todo meio arrogante, na verdade, e ar, hum, (eu ia dizer blasé, mas não, não) entediado. Ensoberbado, mas com motivos para isso. Wilde era bom, sabia que era bom, o melhor.
Assim como descobrimos coisas boas, no caso de Wilde, é possível descobrir coisas que o escritor tenta esconder de toda forma, como a verruga e as espinhas na bunda de Jorge Amado.
Notar isso, para mim, gerou uma curiosidade sem tamanho: como meus leitores que não me conhecem pessoalmente me enxergam? Teria eu um furúnculo no rosto ou feridas nos joelhos que não conheço?
Eu, por exemplo, nunca li De Profundis, mas imaginava o rosto de Oscar Wilde muito antes de ver fotos suas – aquele cabelinho comprido e a arrogância controlada do nariz de Wilde ficaram bem evidentes quando li “O retrato de Dorian Gray”, primeiro livro que li dele. O rosto todo meio arrogante, na verdade, e ar, hum, (eu ia dizer blasé, mas não, não) entediado. Ensoberbado, mas com motivos para isso. Wilde era bom, sabia que era bom, o melhor.
Assim como descobrimos coisas boas, no caso de Wilde, é possível descobrir coisas que o escritor tenta esconder de toda forma, como a verruga e as espinhas na bunda de Jorge Amado.
Notar isso, para mim, gerou uma curiosidade sem tamanho: como meus leitores que não me conhecem pessoalmente me enxergam? Teria eu um furúnculo no rosto ou feridas nos joelhos que não conheço?
12 abril, 2007
08 abril, 2007
Trezentos
Está passando Tróia no SBT e eu me lembrei de 300. Depois percebi que, se Clint Eastwood tivesse filmado 300, provavelmente filmaria ao mesmo tempo um outro filme, chamado "Os Imortais", que contaria a história pelo ponto de vista dos Persas.
Leônidas seria considerado um herege e um covarde, que precisou encurralar o nobre exército de Xerxes para tentar - em vão - vencê-lo. A Oráculo não seria subornada: ela estaria certa, teria realmente o apoio dos deuses ao tentar impedir a guerra. Os espartanos seriam presunçosos, malignos e egoístas, incapazes de emprestar um pouco de terra e água. A invasão persa seria considerada uma guerra justa, liderada por homens de honra contra os trezentos malvados guerreiros demoníacos de Leônidas - e talvez Dílios fosse um monstro com lâminas no lugar dos antebraços.
Acho que só notei isso porque não consigo, enquanto vejo Tróia, deixar de torcer pelos troianos, que sempre me parecem ter mais razão que os gregos - e Homero não queria que pensássemos isso quando escreveu a Ilíada. E Tróia não deixa de ser um bom filme porque "explora o outro lado". Talvez fosse bom se lançassem uma versão de 300 liberada pelo governo iraniano. Mas não tão bom quanto a versão original.
Leônidas seria considerado um herege e um covarde, que precisou encurralar o nobre exército de Xerxes para tentar - em vão - vencê-lo. A Oráculo não seria subornada: ela estaria certa, teria realmente o apoio dos deuses ao tentar impedir a guerra. Os espartanos seriam presunçosos, malignos e egoístas, incapazes de emprestar um pouco de terra e água. A invasão persa seria considerada uma guerra justa, liderada por homens de honra contra os trezentos malvados guerreiros demoníacos de Leônidas - e talvez Dílios fosse um monstro com lâminas no lugar dos antebraços.
Acho que só notei isso porque não consigo, enquanto vejo Tróia, deixar de torcer pelos troianos, que sempre me parecem ter mais razão que os gregos - e Homero não queria que pensássemos isso quando escreveu a Ilíada. E Tróia não deixa de ser um bom filme porque "explora o outro lado". Talvez fosse bom se lançassem uma versão de 300 liberada pelo governo iraniano. Mas não tão bom quanto a versão original.
07 abril, 2007
04 abril, 2007
Não confie em escritores deselegantes
Quando vejo um maltrapilho enquanto caminho pelas ruas, tão logo vou para a calçada oposta e caminho em velocidade superior, como antílope ao ver que não muito longe há um tigre. Todos fazem isso. O mesmo vale para os escritores ruins, mas poucas pessoas notam a semelhança.
Entrando em uma livraria, tento ao máximo manter distância dos escritores muito ruins, mesmo que estejam ao lado de P.G. Wodehouse. Tento curvar um pouco o braço e dar a volta aos livros do mau escritor, tocando apenas no bom livro do escritor de qualidade. Caso seja impossível, chamo um daqueles funcionários da livraria para que busque o livro bom pra mim, e rezo que não haja nenhuma cicatriz quando ele voltar. Geralmente não há, mas é porque são profissionais e devem ir armados ao encontro do livro. Os maus livros de maus escritores usam de técnicas baixas de conquista, a que alguns nomeariam catárticas, mas eu nomeio apelativas, como furar a barriga de todos os que passam com canivetes e tesouras, como os canivetes e as tesouras de seus conteúdos. Ou a promessa de sexo fácil com todas as prostitutas do puteiro - e aqui nunca empregam cabaré ou prostíbulo, mas puteiro, sempre puteiro, e também para as protitutas usam putas, putas, sempre putas - onde se passa parte da história.
O resto da história se divide entre a casa bagunçada do mocinho, que geralmente é um malvado em todos os sentidos, mas é retratado como herói porque mata simplesmente pra defender sua causa - o que ainda soa muito glorioso para a história do mocinho, pois defender a causa é o que fazem os super-heróis, mas esses mocinhos defendem a causa errada e de forma grosseira. Se seus pais morreram, não foi em um assalto, foi culpa de uma orgia em que contraíram AIDS, que passaram para o filho mocinho. O mocinho mata porque tem AIDS -, e a floresta Amazônica, em que serão relatados problemas ambientais e onde, de alguma forma mal explicada, o mocinho vai parar para se aliar a uma ONG terrorista sem glamour.
A contracapa trará menções aos prêmios recebidos da UNESCO pelo autor, como "defensor das causas ambientais urgentes", "inimigo declarado do aquecimento global" e críticas positivas de todos os jornais: "um soco no estômago", se é que isso é positivo. Mas o autor se orgulha de socar estômagos, o que é extremamente deselegante e cruel. O "humor sarcástico" do autor é cortante. Depois da leitura, suponho, ou antes de terminá-la, morre-se de infecção pelo corte do humor sarcástico - e geralmente sutil ao mesmo tempo. Sarcástico, cortante e sutil.
Os mendigos maltrapilhos da rua são, se fato, perigosos. Mas seu perigo é evidente, não é sutil. Eles nos ameaçam antes de nos cortar, não o fazem sem aviso. "Passa a grana ou eu te furo". Se escrita por um mau escritor, até a realidade fica pior: "Eu te furo", diria o mendigo-ladrão, e furaria. Ou nem diria que fura, nem pediria o dinheiro - furaria e pegaria o dinheiro. E, se você desse o dinheiro, ele não te abençoaria, mas te odiaria porque você não deu mais. Os maus escritores pioram tudo o que tocam, tudo o que pensam, transformam em lixo cada palavra.
Sempre que estou pelas ruas e vejo de um lado um mendigo e, do outro, "as veias abertas da América Latina", vou pro lado do mendigo. E correndo.
Entrando em uma livraria, tento ao máximo manter distância dos escritores muito ruins, mesmo que estejam ao lado de P.G. Wodehouse. Tento curvar um pouco o braço e dar a volta aos livros do mau escritor, tocando apenas no bom livro do escritor de qualidade. Caso seja impossível, chamo um daqueles funcionários da livraria para que busque o livro bom pra mim, e rezo que não haja nenhuma cicatriz quando ele voltar. Geralmente não há, mas é porque são profissionais e devem ir armados ao encontro do livro. Os maus livros de maus escritores usam de técnicas baixas de conquista, a que alguns nomeariam catárticas, mas eu nomeio apelativas, como furar a barriga de todos os que passam com canivetes e tesouras, como os canivetes e as tesouras de seus conteúdos. Ou a promessa de sexo fácil com todas as prostitutas do puteiro - e aqui nunca empregam cabaré ou prostíbulo, mas puteiro, sempre puteiro, e também para as protitutas usam putas, putas, sempre putas - onde se passa parte da história.
O resto da história se divide entre a casa bagunçada do mocinho, que geralmente é um malvado em todos os sentidos, mas é retratado como herói porque mata simplesmente pra defender sua causa - o que ainda soa muito glorioso para a história do mocinho, pois defender a causa é o que fazem os super-heróis, mas esses mocinhos defendem a causa errada e de forma grosseira. Se seus pais morreram, não foi em um assalto, foi culpa de uma orgia em que contraíram AIDS, que passaram para o filho mocinho. O mocinho mata porque tem AIDS -, e a floresta Amazônica, em que serão relatados problemas ambientais e onde, de alguma forma mal explicada, o mocinho vai parar para se aliar a uma ONG terrorista sem glamour.
A contracapa trará menções aos prêmios recebidos da UNESCO pelo autor, como "defensor das causas ambientais urgentes", "inimigo declarado do aquecimento global" e críticas positivas de todos os jornais: "um soco no estômago", se é que isso é positivo. Mas o autor se orgulha de socar estômagos, o que é extremamente deselegante e cruel. O "humor sarcástico" do autor é cortante. Depois da leitura, suponho, ou antes de terminá-la, morre-se de infecção pelo corte do humor sarcástico - e geralmente sutil ao mesmo tempo. Sarcástico, cortante e sutil.
Os mendigos maltrapilhos da rua são, se fato, perigosos. Mas seu perigo é evidente, não é sutil. Eles nos ameaçam antes de nos cortar, não o fazem sem aviso. "Passa a grana ou eu te furo". Se escrita por um mau escritor, até a realidade fica pior: "Eu te furo", diria o mendigo-ladrão, e furaria. Ou nem diria que fura, nem pediria o dinheiro - furaria e pegaria o dinheiro. E, se você desse o dinheiro, ele não te abençoaria, mas te odiaria porque você não deu mais. Os maus escritores pioram tudo o que tocam, tudo o que pensam, transformam em lixo cada palavra.
Sempre que estou pelas ruas e vejo de um lado um mendigo e, do outro, "as veias abertas da América Latina", vou pro lado do mendigo. E correndo.
02 abril, 2007
Scorcese não piorou
Não, não piorou. Nem Woody Allen. Nem Spielberg, nem Clint Eastwood. Sofia Coppola mal começou, não está decaindo. Parem de falar besteiras.
Há um tempo, já, que noto essa iconoclastia do povo: "Olha, desde Goodfellas Scorcese nunca mais foi o mesmo", ou "os últimos filmes do Woody Allen foram tão piores que os do início da carreira", ou ainda "Spielberg? O que ele fez depois de Tubarão é lixo". O que importa é destruir os ídolos - algo tão antigo que nem os Cristãos Ortodoxos praticam mais com tanto afinco, mas que esse tipo de gente acha que é super-pós-moderno.
É verdade que o melhor filme do Scorcese é Goodfellas (ainda não vi Touro Indomável, que pode superar), mas isso não faz que seus últimos filmes sejam ruins. O Aviador é excelente e eu realmente gostei de Os Infiltrados. Scoop é melhor que Match Point, que é melhor que Melinda e Melinda..., que, sim, são bons filmes, e falo sério. Eu nunca vi algo do Spielberg mal feito - nunca. Menina de Ouro é, sim, um bom filme. Da Sofia Coppola eu vi Lost in Translation e a Maria Antonieta, e gostei, sim, de ambos.
Mas as pessoas advogam que os melhores diretores façam cada filme melhor e mais inovador que o anterior, o que significa querer que Da Vinci não tivesse feito nada depois de pintar a Monalisa. Os diretores, como qualquer pessoa, tentam fazer uma coisa melhor que a outra, mas nem sempre dá certo. Não significa que ele esteja pior, mas que o mármore para a escultura está acabando. Não é possível fazer milhões de filmes de gangues e ter bons resultados com todos, mas um bom artista transforma uma pedra de mármore ruim na melhor escultura possível. É isso que Scorcese, Woody Allen, Spielberg, Eastwood e, agora, Sofia Coppola (que não, não considero tão boa quanto os outros de que falei, mas digna de nota por causa do preconceito que sofre) tentam fazer com cada história que têm. Ou alguém consegue imaginar uma forma melhor de filmar Men in Black?
____
Devo postar com menos freqüência este mês porque estou na casa dos meus pais, em Petrolina.
Há um tempo, já, que noto essa iconoclastia do povo: "Olha, desde Goodfellas Scorcese nunca mais foi o mesmo", ou "os últimos filmes do Woody Allen foram tão piores que os do início da carreira", ou ainda "Spielberg? O que ele fez depois de Tubarão é lixo". O que importa é destruir os ídolos - algo tão antigo que nem os Cristãos Ortodoxos praticam mais com tanto afinco, mas que esse tipo de gente acha que é super-pós-moderno.
É verdade que o melhor filme do Scorcese é Goodfellas (ainda não vi Touro Indomável, que pode superar), mas isso não faz que seus últimos filmes sejam ruins. O Aviador é excelente e eu realmente gostei de Os Infiltrados. Scoop é melhor que Match Point, que é melhor que Melinda e Melinda..., que, sim, são bons filmes, e falo sério. Eu nunca vi algo do Spielberg mal feito - nunca. Menina de Ouro é, sim, um bom filme. Da Sofia Coppola eu vi Lost in Translation e a Maria Antonieta, e gostei, sim, de ambos.
Mas as pessoas advogam que os melhores diretores façam cada filme melhor e mais inovador que o anterior, o que significa querer que Da Vinci não tivesse feito nada depois de pintar a Monalisa. Os diretores, como qualquer pessoa, tentam fazer uma coisa melhor que a outra, mas nem sempre dá certo. Não significa que ele esteja pior, mas que o mármore para a escultura está acabando. Não é possível fazer milhões de filmes de gangues e ter bons resultados com todos, mas um bom artista transforma uma pedra de mármore ruim na melhor escultura possível. É isso que Scorcese, Woody Allen, Spielberg, Eastwood e, agora, Sofia Coppola (que não, não considero tão boa quanto os outros de que falei, mas digna de nota por causa do preconceito que sofre) tentam fazer com cada história que têm. Ou alguém consegue imaginar uma forma melhor de filmar Men in Black?
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Devo postar com menos freqüência este mês porque estou na casa dos meus pais, em Petrolina.
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