Parte I
____
A viagem terminou como começou: tranqüila. Porque assim são as aventuras, começam sempre na metade do caminho, quando voltar atrás e ir adiante representam os mesmos riscos e desesperanças. Se ainda no porto de Liverpool o Capitão Blake se deparasse com uma feroz tempestade ele, como humano, desistiria de sua empreitada e aportaria novamente, ciente que estaria dos riscos ficar não só com um olho a menos, mas também sem a vida, o que deixaria muito tristes todos os seus familiares de Porthsmouth (especialmente sua sobrinha, Nicole, por quem nutria afeto excessivo e a quem dedicava todos os seus saques em cartas privadas, como depois se soube por suas correspondências.
Detalhes sobre o meio da viagem poderiam conter embates com monstros marítimos, ondas gigantescas, naufrágios, mas só ocorreram alguns poucos enjôos na tripulação, duas febres com delírios e, de fato, dois embates com criaturas míticas marinhas, que provaram não ser míticas, mas se provaram marinhas. Uma sereia, derrotada pelo arpoeiro, que tinha noções de música e, ao ouvir seu canto, reclamava da coloratura e dizia o tempo todo que semitonava, o que fez a sereia explodir, e uma lula-colossal miniatura, mas com jato de laser saindo de suas ventosas, super-força e super-velocidade, no que deu bastante trabalho pro limpador de convés, que a capturou com a vassoura de "pêlos longos e inquebráveis". Infelizmente o espécime fugiu pelo chão do barco, em que fez um buraco até alcançar o mar. Felizmente não atacou novamente, pois seria difícil para o limpador de convés capturar a lula, varrer o chão e tampar o buraco com o dedo ao mesmo tempo - as duas últimas tarefas já eram suficientemente desafiadoras, já que o convés de uma nau é bastante grande e seu casco fica a vários metros de distância do chão do convés, o que exigia incrível elasticidade do limpador de convés, que esticou seu dedo mínimo do pé por alguns metros e seus braços por outros tantos.
Esses dois inconvenientes acabados, a segunda metade do caminho foi rápida, embora com o vento em proa, o que exigiu grande trabalho dos remadores - pois o Capitão Blake morria de preguiça de recolher as velas. Aportaram em Estocolmo dia 06 de outubro de 1637.
06 outubro, 2007
28 setembro, 2007
O questionário do Ratinho
Insatisfeito com as respostas dadas pelo apresentador Carlos Massa ao questionário que leva seu nome, resolvi corrigir as respostas, dando a resposta certa logo abaixo. Começando em 3, 2, 1.
Your most marked characteristic?
Errado: A craving to be loved, or, to be more precise, to be caressed and spoiled rather than to be admired.
Certo: O bigode.
As outras respostas serão dadas conforme a preguiça permita, provavelmente nunca. Sintam-se livres pra responder também.
27 setembro, 2007
Um a Zero
E o São Paulo teve a atuação mais medíocre dos últimos tempos no Morumbi. Felizmente, meio São Paulo basta. Aliás, dizer meio São Paulo é aumentar demais os números. Considerando-se que o futebol é o ataque e que a defesa é só algo que acontece e, portanto, não conta, o São Paulo tinha dois homens em campo. E um deles durante apenas o segundo tempo. Também nunca vi tantos passes errados, tantos lançamentos inúteis, tantas falhas de ataque. E tanta frescura de jogador. Quando Aloísio queria sair, todo mundo começou a se jogar no chão e ficar zonzo - "também quero descansar, professor Murici", "tô com medo, fessor". Ainda bem que o jogo era contra o Boca em atuação bem mediana, também. Não ia ser justo que o Boca jogasse bem contra um São Paulo em que o menos gay era justamente o Richarlyson.
(Ok, digo quem são os dois-em-campo, pra quem não viu: Dagoberto e Aloísio. Agora não me enche, volta a dormir que é muito cedo).
(Ok, digo quem são os dois-em-campo, pra quem não viu: Dagoberto e Aloísio. Agora não me enche, volta a dormir que é muito cedo).
26 setembro, 2007
Em que me sinto, pretensiosamente, Diogo Mainardi
Ah, as conseqüências! Se não fosse por ligar tanto pra elas, muita coisa estaria melhor no Brasil. Em Recife, por exemplo, um gari achou uma maleta com dinheiro - uns mil reais aí. Quarenta e cinco, acho - na prefeitura, ou pelo menos foi o que entendi do professor falando, e disse que entregou pro segurança da prefeitura, que deu um jeito de sumir com a maleta. A pergunta a se fazer é...
Errado, meu desatento leitor. Não interessa quem está com a maleta, quem fez o quê com ela. Não importa nada depois do encontro do gari com a maleta. A pergunta apropriada é "O que uma maleta com dinheiro fazia na prefeitura?" ou "Quem levou a maleta pra lá?"
Lembremos que o ambiente de que falamos é uma prefeitura, por onde circulam, naturalmente, políticos. O que o honrado segurança fez quando resolveu gastar por si o dinheiro da maleta - supondo que foi isso o que ele fez - foi evitar a conclusão de um poderoso esquema de propina. Mas o escândalo não se instaurou. Ninguém liga pro passado, as pessoas não gostam de investigar causas, ocupadas que estão com as decisões a se tomar - prende o guarda; bate; tortura; bandido; dinheiro público, devolve!; eu quero o meu.
Não considero crime o que o segurança fez porque eu não ia aproveitar nada mesmo do dinheiro, que seria gasto com prostitutas de luxo ou viagens à Malásia, para organizar esquemas internacionais de corrupção. Se não posso usar o dinheiro público, prefiro que um segurança use. Me sinto mais tranqüilo e seguro de perceber que, em vez de estar dando ainda mais dinheiro pra quem já me rouba sempre, tenho um bandido menor, um ladrão de galinhas, interessado nos meus bolsos - antes um trombadinha que a máfia.
Mas claro, existe a possibilidade de que uma maleta cheia de dinheiro escondida num banheiro da prefeitura fosse completamente lícita, esquecida lá por algum distraído que não liga o bastante pra dinheiro suficiente pra comprar um pequeno apartamento ou dar de entrada numa casa em bairro nobre. E digo isso, claro, rindo de tão ridícula que é essa hipótese, como se dinheiro honesto de alguma espécie pudesse entrar num órgão público sem sair fedendo ou se sujar logo na entrada.
Errado, meu desatento leitor. Não interessa quem está com a maleta, quem fez o quê com ela. Não importa nada depois do encontro do gari com a maleta. A pergunta apropriada é "O que uma maleta com dinheiro fazia na prefeitura?" ou "Quem levou a maleta pra lá?"
Lembremos que o ambiente de que falamos é uma prefeitura, por onde circulam, naturalmente, políticos. O que o honrado segurança fez quando resolveu gastar por si o dinheiro da maleta - supondo que foi isso o que ele fez - foi evitar a conclusão de um poderoso esquema de propina. Mas o escândalo não se instaurou. Ninguém liga pro passado, as pessoas não gostam de investigar causas, ocupadas que estão com as decisões a se tomar - prende o guarda; bate; tortura; bandido; dinheiro público, devolve!; eu quero o meu.
Não considero crime o que o segurança fez porque eu não ia aproveitar nada mesmo do dinheiro, que seria gasto com prostitutas de luxo ou viagens à Malásia, para organizar esquemas internacionais de corrupção. Se não posso usar o dinheiro público, prefiro que um segurança use. Me sinto mais tranqüilo e seguro de perceber que, em vez de estar dando ainda mais dinheiro pra quem já me rouba sempre, tenho um bandido menor, um ladrão de galinhas, interessado nos meus bolsos - antes um trombadinha que a máfia.
Mas claro, existe a possibilidade de que uma maleta cheia de dinheiro escondida num banheiro da prefeitura fosse completamente lícita, esquecida lá por algum distraído que não liga o bastante pra dinheiro suficiente pra comprar um pequeno apartamento ou dar de entrada numa casa em bairro nobre. E digo isso, claro, rindo de tão ridícula que é essa hipótese, como se dinheiro honesto de alguma espécie pudesse entrar num órgão público sem sair fedendo ou se sujar logo na entrada.
22 setembro, 2007
Sem posts por um tempo
Algumas pessoas se envergonham do que escrevem quando lêem livros muito bons ou blogs muito bons e acabam não escrevendo por um bom tempo. Comigo é diferente: nunca mais vou conseguir escrever porque vi muitos vídeos da Marilyn no youtube e muitas fotos no google. Isso corta completamente a capacidade produtiva, porque em qualquer descrição você quer incluir cada detalhe da Marilyn. As pernas da minha cadeira vestem 42, o milho que como é louro, o arco na entrada da cidade lembra as sobrancelhas e até as manchas de diesel perto de um bueiro no chão têm que ser charmosas como aquela pinta perto da boca - isso porque sou muito decente pra falar de tudo. Fica difícil fazer qualquer coisa quando é isto o que temos em mente.
18 setembro, 2007
Um pouco de arte e literatura (bem pouco, que não entendo muito dessas coisas)
Os modernistas querem a arte pura, assim, como alguém que bebesse arte e tivesse medo de se contaminar com giárdia.
____
Gosto da idéia da literatura tradicional, mestiça, essa mulata de quadris largos, que mistura papel e palavras e sentidos, dá uma rebolada e faz todo homem de bem viajar um pouco. A literatura moderna é só papel. Ou só palavras. Seja lá onde estiver a essência da literatura, para o modernista não está no sentido.
____
Gosto da idéia da literatura tradicional, mestiça, essa mulata de quadris largos, que mistura papel e palavras e sentidos, dá uma rebolada e faz todo homem de bem viajar um pouco. A literatura moderna é só papel. Ou só palavras. Seja lá onde estiver a essência da literatura, para o modernista não está no sentido.
14 setembro, 2007
A congressman of my own
Sempre sonhei em comprar um deputado. Ele ficaria sentadinho sobre o meu monitor, as perninhas manchando o vidro, um terno barato com ombreiras e uma webcam no lugar do nariz. Na base, sob seus pés, a advertência: "Cuidado! Se a câmera for mantida ligada, pode reparar em todos os seus podres e usá-los contra você em caso de processo". Na caixa, a propaganda: "O favorito da família Sarney", dentro de um balão em formato de estrela.
Ou pode ser um elefantinho, mesmo, com a tromba no lugar das pernas manchando o vidro e caráter no lugar do terno, mas o deputado parece uma idéia mais divertida.
P.s.: Vou pro Rio agora à tarde. Se quiser me buscar no aeroporto e levar ao meu destino, fico muito feliz, senhor meu fã.
Ou pode ser um elefantinho, mesmo, com a tromba no lugar das pernas manchando o vidro e caráter no lugar do terno, mas o deputado parece uma idéia mais divertida.
P.s.: Vou pro Rio agora à tarde. Se quiser me buscar no aeroporto e levar ao meu destino, fico muito feliz, senhor meu fã.
Assinar:
Postagens (Atom)