24 junho, 2008

Vice-escolhido IV

Capítulos I, II, III,

IV

Como eu dizia antes de ser interrompido pela linearidade da narrativa, e depois pela sua própria irregularidade, um dia ela preparou tudo para fugir e, em seu caminho pelas ruas de Medina, conheceu o Senhor José de Aritmética, um filósofo, filólogo e fisiologista luso-grego com nariz femininamente arrebitado e voz desnecessariamente macia. O Senhor José de Aritmética era calvinista, daqueles que raramente se vê, mesmo em terras da coroa, nos tempos do rei Charles, o Tradutor.

A moça recorreu a ele, em desespero, e pediu abrigo e comida. Em troca, trabalharia na casa dele até que a primeira embarcação partisse para a Inglaterra. Os tempos eram de crise na Arábia, e apenas uma embarcação semanal partia, aos sábados, e chegava em Manchester toda quarta-feira, na hora do culto por que há tanto tempo ela ansiava. Viajaria com a melhor de suas roupas, para, já no desembarque, correr para a igreja e matar a saudade de Deus que tanto a afligia. Em seguida, partiria para York, onde moravam seus pais e irmãos.

Como o leitor está acostumado a Daniel Defoe, devo apenas dizer que a viagem de volta foi uma das passagens tranqüilas da história, e a chegada a Manchester não trouxe grandes conseqüências, mas o caminho para York e sua chegada iniciaram a segunda parte da história. A essa altura, Defoe pensava intitular sua história "A atribulada vida de Zélia DoBig, que: viajou o mundo vendendo cocadas, foi feita prisioneira de um mouro por doze anos, voltou à sua cidade natal, onde descobriu sumidos os pais e os irmãos, e iniciou sua jornada de circunavegação em busca deles, que por três e vinte anos durou, até que foi sugada com todo o navio por um redemoinho nas Índias, e finalmente chegou a encontrá-los no centro da terra, três vezes oito anos depois, onde viveram e fundaram uma colônia, vindo a morrer com completos quatro vezes vinte anos, mais um, depois de se casar com um dos naufragados de seu navio, ter com ele três filhas e um filho, seguida por breve narrativa de como seu filho, de nome Arne Saknussem, viajou de volta à superfície, estabeleceu-se na Escandinávia, e descobriu um caminho alternativo para a casa de seus pais, através de uma montanha, narradas por seus protagonistas".

Chega a hora de interromper novamente a narrativa, pois qualquer linha reta certamente entedia o leitor e causa sono - e não é dormindo que quero que ele me leia, pois as histórias, se boas sonhadas, são melhores ainda imaginadas, quando é a razão, e não o subconsciente, que as completa com os detalhes que o narrador desleixado não entregou - penso no meu leitor com bons modos e o maior dos otimismos. Creio que sua razão não colocaria rabo de coelho nos personagens, mas que, em seus sonhos, o rabo de coelho seria bem-vindo. E desta vez interrompo não para retomar a história de nosso protagonista, mas de como o acaso o ajudou, incluindo na história, sem consentimento de seu narrador, um personagem que se tornou, durante a Rinha Anual de Dragões, de grande ajuda para nosso vice-escolhido. Seu nome, coincidentemente ou não, era Arne Saknussem, que nem de longe é um nome comum em País, e trata-se do único registro de alguém com esse nome em toda a história de País.

Sucedeu o seguinte:

Antes, aliás, a dúvida que tanto atormenta quem conta histórias. Quando duas coisas ocorrem ao mesmo tempo, qual deve ser narrada antes? Porque, se dois fatos estão juntos, é justo que os exponhamos da maneira mais simultânea possivel, o que significaria algo mais ou menos assim:



Não quero, entretanto, dar trabalho a meu leitor, pobre dele, para decifrar o que as sobreposições significam. Decido aqui, e por puro interesse meu, talvez contra a vontade do leitor, que narro primeiro a parte menos importante da história, para que ele se prenda à narrativa até, pelo menos, o próximo capítulo. Sigamos com Arne Saknussem, portanto, antes de continuar com Marcos. Apenas peço que não se esqueçam do rosto de Marcos, e de que esta história é dele, mais que de qualquer outro personagem.

Bem, como narrou Defoe, Saknussem descobriu um caminho alternativo para a terra de seus pais. A entrada, por uma montanha, e a saída (isso não narrou em seus escritos criptográficos) por um gêiser que levava aos territórios da rainha Neuma XXXI, numa jornada em água morna e límpida, e que, de alguma forma, jamais o molhou em todas as vezes em que subiu mundo afora.
____
É temporada de continuações. Ou era, porque viajo amanhã pra São Paulo e não postarei de lá. O frio intenso do interior congelará meus dedos e ficarei incapaz de me movimentar até o fim de agosto, embora chegue a Recife ainda em julho (sempre se precisa de certo tempo pra derreter, camarada). Quem liga?

Abraços.

15 junho, 2008

Observação durante o programa do Faustão, enquanto um maestro e um promotor falam bobagens

O próximo que disser que educação é mais eficiente que punição "porque um preso custa 3x mais que uma criança" vai levar um cascudo e aprender a contar. Depois vai fazer um censo da população adulta inteira, e depois contar a população carcerária, daí vai me dizer se mais de 1/3 dos adultos estão presos. Caso contrário, compensa prender. Além disso, será obrigado a contar quantos dos presidiários foram educados e a descontar da porcentagem final.

E mais: parem de pensar em utilidade. Pensem em moralidade. Seus plebeus. Não eduquem só pra não ter presos, que isso faz mal à alma.

14 junho, 2008

Depósito

Ele "depositava" coisas no blog. "No meu blog eu deposito meus sentimentos", "no meu blog eu deposito minhas frustrações", "meus desejos, todos depositados". Quando leram, entenderam: aquilo era mesmo um lixo.

13 junho, 2008

do Brasil

Criciúma
Paulista
Juventude
Santo André
Sport

Anteontem, uma confirmação de que o Sport é time pequeno. Quanto ao Corínthians, não se conversa. Pelo menos não dá pra rebaixar na Copa do Brasil. Infelizmente.

09 junho, 2008

Johnny Cage

He shot Shao Kahn in Reno just to watch him die.

06 junho, 2008

Vaidade

É o caminho escuro, apenas, que leva à luz. Quem caminha iluminado não percebe sua intensidade. O vaidoso anda na penumbra: vê a luz e ao mesmo tempo se sente parte dela. O pecado do vaidoso é aumentar a própria luz; o vaidoso se crê tocha. Desvia-se do seu caminho pra seguir a própria sombra. O ogro vaidoso encara o espelho e nele vê rosa. A rosa no espelho vê espinhos. A diferença entre o vaidoso e o virtuoso é o desejo da melhora. O vaidoso, rosa, não quer lapidar seus espinhos. No fim das contas, o vaidoso é um solitário. O vaidoso só quer agradar, geralmente a si mesmo. Acaba agradando, mas há quem não goste.

04 junho, 2008

- Sabe, eu cansei de auto-referência.
- Sabe, eu cansei de auto-referência.
- Sabe, eu cansei de auto-referência.
Etc.