22 julho, 2012

Infinite Jest ainda não me arrebatou como Deus a Enoque, mas ainda aguardo paciente e diligentemente por esse dia de iluminação e grandiosidade

Já se foram umas duas eras glaciais e alguns quilos adquiridos para garantir minha sobrevivência ao frio extremo desde que postei pela última vez. O que me motivou a postar aqui foi David Foster Wallace. Meu Kindle aponta para 18% lidos, e li nalgum lugar que o livro melhora substancialmente entre as páginas 200 e 700, ficando realmente top-notch e bacaninha. 18% são umas 195 páginas, mais ou menos.

DFW é provavelmente o maior estilista (talvez "mixer de estilos" fosse mais preciso, já que o estilo dele não é único nem lá muito próprio, mas uma vitamina de tudo que existe por aí) em inglês (conseqüentemente, do mundo) dos últimos 50 anos ou mais. Ele emula o que quer com uma facilidade fantástica, sem deixar rastros de um autor só. Algumas vozes que ele cria são tão extremamente distantes do que esperamos (desde o começo a voz que mais apelou para mim como "importantes" foram as que falam de Hal e de Marathe) que são simplesmente chatas.

DFW cria cacoetes de linguagem que, engraçadinhos no começo, sempre cansam um pouco, e, às vezes, muito. Por volta da página 100 (acho), o avô de Hal conta ao pai dele como se acidentou jogando tênis e como teve de parar, e a linguagem é "frenética" (sou bastante vago no uso de adjetivos, me deixem), dá realmente pra sentir a emoção intensificando, adensando e ficando piegas e chorosa ao longo de todo o capítulo. Apesar de excelente, é um capítulo bastante mais longo do que devia, na tão humilde percepção deste pobre e ainda incompleto leitor de Infinite Jest.

Sei que DFW não é burro, e percebi que depois de muitos dos trechos longos e enfadonhos aparentemente sobre nada ele costuma encaixar links pra enredar tudo e ficar bacaninha e impressionar porque "poxa, uau, né verdade que deu certo?". Mas esse delay - DFW não coloca a agulha no palheiro para que encontremos, ele separa a agulha e o palheiro, nos faz procurar pelo palheiro todo e, depois que concluímos que não tem agulha nenhuma ali, ele mostra que, na verdade, o palheiro e a agulha são um só, e que só podemos depois de revirar todo o palheiro começar a apreciar a agulha na totalidade (preguiça e incompetência e falta de vontade de divagar muito mais e sono - acabei de acordar do meu sono-pós-vitória-do-São-Paulo, coisa rara nesses dias - me impedem de explicar melhor essa comparação com a agulha no palheiro, então solicito de vossas mercês que usem um pouco de suas imaginações jovens e ágeis e férteis-como-a-terra-sedimentar-do-sítio-do-picapau-amarelo pra entender direito essa história mal contada).

Algumas vezes isso funciona, noutras não. Às vezes a agulha é de crochê, e nós queremos tricotar, aí acaba tudo como "é, inteligente esse cara, espertinho, mas não é pra mim". Claro que não quero ser palhaço aqui e dizer que um livro de mil páginas tem a obrigação de ser 100% entretenimento 100% do tempo. Mas quando comecei a ler, esperava menos firulas do que o livro parece ter até agora. The Recognitions me pareceu imensamente mais consistente que IJ (a falha maior em The Rec foi, pra mim, o excesso de aliterações e pans). E não existe em torno dele todo o hype que há/houve (tô meio alheio) por IJ. Por isso, esperava mais.

Logo entrarei nas 500 melhores páginas do livro, segundo dois ou três amigos disseram, e acredito que esse tipo de firula deve diminuir e dar espaço a alguma forma de plot mais ou menos regular. Até lá, toda vez que DFW faz uma firula muito longa ou muito chata, fico pensando que talvez fosse necessário aquilo tudo ali, que diante-das-condições-da-literatura-de-então aquilo fosse tudo muito necessário e importante e relevante e positivo, mesmo. Aí, toda vez que penso assim, fico cantarolando "Argumento", do Paulinho da Viola (acho). Principalmente aquele trecho:
Faça como um velho marinheiro
Que durante o nevoeiro
Leva o barco devagar
Aí fico pensando que é bem por aí, mesmo. Mas talvez eu esteja errado, e vou descobrir depois que terminar de ler o livro, algo que pode demorar dias meses anos ou nunca acontecer, dependendo dos humores e das circunstâncias e de quão ocupado estarei com outras coisas - tais quais outros livros, pq ninguém merece ficar lendo só Infinite Jest sem nada intercalado - já intercalei uns três livros e foram todos muito bons e bacanas e bonitos. Agora devo intercalar Cold Comfort Farm, da Stella Gibbons, do qual que disseram generosidades tremendas, mas que, nas poucas páginas que li, não encontrei nada que não fosse quase que radicalmente datado (tipo Star Trek). Não que eu devesse esperar outra coisa de uma sátira de costumes, já que é meio difícil ser ETERNO quando se está rindo dos modismos de um tempo, né?

NOTA DO AUTOR: A cronologia de IJ é irritante.

Um comentário:

Alessandro Garcia disse...

Bacana seu texto.

Mas, como assim, "a cronologia é irritante"?
Queria que você falasse mais disto, por favor.

Abraço!