Algo que me chateia um pouco é a vontade de amadurecer que algumas pessoas têm. Ela é tão intensa, tão, mas tão forte, que essas pessoas acham que é preciso se esforçar pra gostar de coisas diferentes, coisas de que "gente madura" gosta, não esses filmes infantis que ele assiste sempre. De repente, lá está o inconformado, o imaturo, buscando um motivo pra odiar Titanic, que era seu filme favorito até ler que Titanic não é isso tudo, não, é um filme muito superestimado. Aí, primeiro passo, odeia o filme porque existem melhores. Ou por causa do Leonardo di Caprio ("não gosto dele, não, muito artificial! E olha que cara de menino! Querem fazer ele passar por ator, pode um negócio desses?"). [Uau! Quatro sinais de pontuação juntos. Ninguém pode fazer melhor!].
Daí cai numa de odiar brigadeiro porque beijinho é mais gostoso, e em pouco tempo se torna alguém que só come um doce - provavelmente pastel de nata, mas isso não vem ao caso. Aí descobre que doces são coisas infantis e que bom mesmo, que do que o pessoal maduro gosta mesmo, ah!, é de brócolis. E se esforça por comer brócolis contra a vontade de suas papilas, que se contorcem e deformam ao longo do tempo. E pára de rir, por dois motivos: ninguém maduro ri, por incapacidade, e ninguém que come brócolis tem esse direito - a natureza veda, um ou outro.
Já na literatura, pobres autores medíocres, tão desprezados por quem é mais vivido, mais conhecedor do mundo! Nunca alguém maduro lê bestsellers. Nenhum. Se disserem que Charles Dickens vendeu mais de duzentos exemplares de Oliver Twist quando era vivo, vira um autor muito comercial. Se o aspirante a maduro for comunista, um vendido. Se for conservador, "Dickens se entregou à vontade do populacho". Em ambos os casos, "bom mesmo era quando ele não queria agradar o mercado/o povão, era underground".
Na música, o maduro abandona tudo o que ouvia na juventude pra escutar compositores clássicos. E nunca é atacado por nostalgia, nunca tem lembranças. Lembranças são para os mais infantis. Só compositores clássicos merecem o ouvido maduro. "Lembra daquela banda X?", pergunta um amigo. "Não, mas tenho ouvido bastante a Heróica" é a resposta invariável.
Não se discute, claro, que a Heróica é grandiosa. Mas para o maduro ela não é grande pelas sensações que proporciona. É grande porque é matematicamente bem composta, como uma equação do segundo grau resolvida - ah, que prazer dariam ao maduros as equações de segundo grau, se eles fossem capazes se sentir prazer!
Maturidade e sensibilidade são opostas, e eu digo que nenhum maduro consegue se alegrar ouvindo Vivaldi, nenhum maduro vê filmes por lazer, pinturas por disposição. É tudo operação mecânica, tudo baseado puramente no gosto alheio e num senso de elitismo superestimado. Porque sensibilidade é coisa de criança ou de plebe, um homem maduro não se comove com facilidade.
Para testar um maduro, se você for considerado bom por ele, se for inspiração, diga que um autor muito ruim é muito bom, que uma música de segunda é maravilhosa. Para ele é tudo igual, tudo matemática, e ele concordará. A opinião dele é a mais maleável de todas - balança ao gosto de quem tem opinião verdadeira. Um maduro critica o gosto alheio baseado no de terceiros, e a autoridade é a única língua que entende. E sai por aí, divulgando Mozart, mas com o coração opresso, louco pra dançar Calypso.
P.s.: Só lembrei disso agora que terminei de escrever: Se morre algum parente do maduro, "era apenas um amontoado de moléculas que se foi, nada com que me preocupar. Isso é tudo? Você interrompeu meu Schubert".
11 setembro, 2007
09 setembro, 2007
08 setembro, 2007
Eddie Cantor
Ah, o mundo é cheio dessas surpresas agradáveis. Numa tarde você está circulando pelas ruas do Youtube, vendo videos de Calamity Jane e você vai lá e dobra à direita num comentário de alguém que odeia os anos cinqüenta, parando numa página pessoal cheia de vídeos da década de trinta, todos com Eddie Cantor. E eu compartilho aqui porque quero muito que vocês me amem. Vamos, declarem-se. Passei todo o resto da tarde com ele, vendo sua cicatriz e fazendo aquele som esquisito com o lábio - que já vi em algum lugar, com outra pessoa, mas não lembro quem.
06 setembro, 2007
Tholl
O problema da internet é que, quanto mais falamos mal das coisas, mais gente nos procura atrás delas pelo google.
04 setembro, 2007
Conto inacabado
Vocês já devem ter notado que eu sempre começo coisas, às vezes até boas, como considero o vice-escolhido, e paro sem nenhuma explicação. Segue o início de mais um conto que comecei e não terminei, e a única explicação que posso dar é que sou incapaz de criar meios - tenho escrito o último parágrafo desse conto, mas não sei como carregá-lo até lá, de forma que vocês podem imaginar o meio e o fim como quiserem, que talvez nunca existam de verdade.
Outro que nunca terminei e que sempre me pareceu uma boa idéia foi o menino-peixe, pobre Fabiano, esquecido entre os velhos arquivos do word. A única coisa que peço é que vocês se divirtam com começos. Se alguém quiser construir um meio pra história sinta-se à vontade, como se eu fosse a professora da terceira série que manda completar um texto. Mas não se esqueçam de usar as palavras "flor", "nariz" e "capitão" e a expressão "vamos pra balada, minha nega". Uma boa oportunidade pra fingirmos que blogs são ferramentas interativas etc. Mas o que interessa aqui é isto:
De como nasceu uma flor no nariz do Capitão
Seu nome era Blake e seu navio o Sta. Luiza, nome obtido depois de um engano do pintor, que trocou a ordem das fôrmas acrílicas das letras Z e I, que homenageariam a santa protetora da visão, sentido mais apurado em nosso estimado capitão. Talvez a Santa tenha se irritado um pouco com isso, porque durante meses o Capitão Blake seria obrigado a usar um tapa-olho, vítima do ataque desmerecido de um bando de cisnes em migração - um dos quais ficou com seu olho direito, sobrando-lhe apenas o esquerdo. Eis a história de como ele recuperou não só a visão, mas também seu olho – o que é natural, pois ainda não se conhece uma forma de enxergar sem olho, embora se conheçam olhos que não enxergam.
A perda de sua visão teve no Capitão Blake efeito contrário ao que tem nos demais piratas, especialmente porque era tão cultuada por ele que, em vez de aumentar a ameaça que representava – todo pirata com olho de vidro costuma ser de hierarquia mais alta – ao lado dos de perna-de-pau e logo abaixo daqueles que usam ganchos para substituir as mãos – que piratas inteiros, pois a inteireza não diz muito sobre ninguém, a não ser que de duas uma: nunca tentou ou nunca falhou. Mas a primeira alternativa é bem mais precisa, pois não falha apenas quem não tenta o bastante.
Devia também assim ser nas outras profissões, pois qual é o esforço por que passa alguém para ser exatamente como mandou a natureza? Mais difícil é tornar-se outro, prova experiência. Quando for contratar um advogado, prefira um que perdeu uma orelha - ou numa busca por provas para inocentar seu cliente ou por lazer, para dá-la a uma prostituta. Esse advogado será superior aos outros. Quando for escolher um médico, fique com o paraplégico que se acidentou caindo de uma montanha para colher a erva rara que curaria seu paciente. Quando for votar em um presidente – a tarefa mais difícil – escolha um que perdeu, mais que o dedo, o cérebro, que quanto menos pensa um líder mais é livre pra pensar quem vive no país que ele governa.
Voltando, entretanto, ao nosso assunto, o estimado Capitão Blake, ao contrário dos outros piratas, ao perder o olho não ficou mais cruel: deixou a profissão, mantendo apenas o título e o nome. Assumiu como missão de vida recuperar – como quer que fosse – seu olho direito. E partiu em sua mais longa jornada, mas talvez a menos aventureira e perigosa, que assim têm de ser os fatos em narrativa de mau autor.
Era inglês, como indica seu nome, e rico, como indicam a profissão e o cargo. Comprou uma pequena frota, constituída de nau e caravelas, contratou os tripulantes e partiu rumo à Suécia, onde, disseram-lhe, vivia o melhor dos médicos do mundo.
Outro que nunca terminei e que sempre me pareceu uma boa idéia foi o menino-peixe, pobre Fabiano, esquecido entre os velhos arquivos do word. A única coisa que peço é que vocês se divirtam com começos. Se alguém quiser construir um meio pra história sinta-se à vontade, como se eu fosse a professora da terceira série que manda completar um texto. Mas não se esqueçam de usar as palavras "flor", "nariz" e "capitão" e a expressão "vamos pra balada, minha nega". Uma boa oportunidade pra fingirmos que blogs são ferramentas interativas etc. Mas o que interessa aqui é isto:
De como nasceu uma flor no nariz do Capitão
Seu nome era Blake e seu navio o Sta. Luiza, nome obtido depois de um engano do pintor, que trocou a ordem das fôrmas acrílicas das letras Z e I, que homenageariam a santa protetora da visão, sentido mais apurado em nosso estimado capitão. Talvez a Santa tenha se irritado um pouco com isso, porque durante meses o Capitão Blake seria obrigado a usar um tapa-olho, vítima do ataque desmerecido de um bando de cisnes em migração - um dos quais ficou com seu olho direito, sobrando-lhe apenas o esquerdo. Eis a história de como ele recuperou não só a visão, mas também seu olho – o que é natural, pois ainda não se conhece uma forma de enxergar sem olho, embora se conheçam olhos que não enxergam.
A perda de sua visão teve no Capitão Blake efeito contrário ao que tem nos demais piratas, especialmente porque era tão cultuada por ele que, em vez de aumentar a ameaça que representava – todo pirata com olho de vidro costuma ser de hierarquia mais alta – ao lado dos de perna-de-pau e logo abaixo daqueles que usam ganchos para substituir as mãos – que piratas inteiros, pois a inteireza não diz muito sobre ninguém, a não ser que de duas uma: nunca tentou ou nunca falhou. Mas a primeira alternativa é bem mais precisa, pois não falha apenas quem não tenta o bastante.
Devia também assim ser nas outras profissões, pois qual é o esforço por que passa alguém para ser exatamente como mandou a natureza? Mais difícil é tornar-se outro, prova experiência. Quando for contratar um advogado, prefira um que perdeu uma orelha - ou numa busca por provas para inocentar seu cliente ou por lazer, para dá-la a uma prostituta. Esse advogado será superior aos outros. Quando for escolher um médico, fique com o paraplégico que se acidentou caindo de uma montanha para colher a erva rara que curaria seu paciente. Quando for votar em um presidente – a tarefa mais difícil – escolha um que perdeu, mais que o dedo, o cérebro, que quanto menos pensa um líder mais é livre pra pensar quem vive no país que ele governa.
Voltando, entretanto, ao nosso assunto, o estimado Capitão Blake, ao contrário dos outros piratas, ao perder o olho não ficou mais cruel: deixou a profissão, mantendo apenas o título e o nome. Assumiu como missão de vida recuperar – como quer que fosse – seu olho direito. E partiu em sua mais longa jornada, mas talvez a menos aventureira e perigosa, que assim têm de ser os fatos em narrativa de mau autor.
Era inglês, como indica seu nome, e rico, como indicam a profissão e o cargo. Comprou uma pequena frota, constituída de nau e caravelas, contratou os tripulantes e partiu rumo à Suécia, onde, disseram-lhe, vivia o melhor dos médicos do mundo.
03 setembro, 2007
01 setembro, 2007
Circo
O problema de uma gorda no circo é ela achar que precisa fazer graça pra rirem dela.
____
Digo isso porque acabo de chegar de uma apresentação do grupo Tholl, de Pelotas, e a gordinha de lá - que grupo não tem uma gordinha? - ficava batendo na barriga e fazendo sons estranhos. Toda a pantomima exagerada ficaria bem sob uma tenda, mas estávamos num teatro, à noite, com iluminação toda bem feitinha e uma trilha sonora que caberia bem num filme da Barbie (ótimo sinal. Nos filmes da Barbie toca Quebra Nozes e O Lago dos Cisnes), apesar de duas músicas disco. Deu vontade de baixar o hino da Espanha - ou é o do México?
Mas ah, a parte circense é ótima. Todas aquelas acrobacias, com ar condicionado e poltrona acolchoada ficaram ótimas, apesar de não ter tido nada que desse medo - ou eu estava muito frio, não sei. Pirâmide humana, pessoas balançando naqueles panos que caem do teto, equilibrando-se sobre uma bola. E não tinha mágico. Por algum motivo só a palhaçada é obrigatória no circo. É preciso uma gorda batendo na barriga, são necessários erros propositais do malabarista, mas as cartolas são dispensáveis. É assim que funciona? Que quisessem manter a tradição no circo vá bem, mas cortando a mágica e deixando a gorda vestida de enfermeira sexy, qual!
E os artistas resmungavam coisas. Em meio àquela mímica exagerada havia ruídos misteriosos como "tictictictictic" ou "bumpbumpbump" ou "sshsshssh" e por aí milhares. E andavam daquele jeito que os palhaços andam, balançando muito as pernas. Depois executavam duplos mortais e me deixavam mais tranqüilo. Eu diria que não vale a pena, mas o ESPETÁCULO (essa palavra que sempre deve ser grafada em maiúsculas) é baratinho, R$7,50, e as acrobacias são muito bonitas mesmo. E a música, saída de uma sessão de Pocahontas, compensa a hora e meia dentro do teatro. E o ar condicionado, que compensa qualquer coisa em Recife.
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Digo isso porque acabo de chegar de uma apresentação do grupo Tholl, de Pelotas, e a gordinha de lá - que grupo não tem uma gordinha? - ficava batendo na barriga e fazendo sons estranhos. Toda a pantomima exagerada ficaria bem sob uma tenda, mas estávamos num teatro, à noite, com iluminação toda bem feitinha e uma trilha sonora que caberia bem num filme da Barbie (ótimo sinal. Nos filmes da Barbie toca Quebra Nozes e O Lago dos Cisnes), apesar de duas músicas disco. Deu vontade de baixar o hino da Espanha - ou é o do México?
Mas ah, a parte circense é ótima. Todas aquelas acrobacias, com ar condicionado e poltrona acolchoada ficaram ótimas, apesar de não ter tido nada que desse medo - ou eu estava muito frio, não sei. Pirâmide humana, pessoas balançando naqueles panos que caem do teto, equilibrando-se sobre uma bola. E não tinha mágico. Por algum motivo só a palhaçada é obrigatória no circo. É preciso uma gorda batendo na barriga, são necessários erros propositais do malabarista, mas as cartolas são dispensáveis. É assim que funciona? Que quisessem manter a tradição no circo vá bem, mas cortando a mágica e deixando a gorda vestida de enfermeira sexy, qual!
E os artistas resmungavam coisas. Em meio àquela mímica exagerada havia ruídos misteriosos como "tictictictictic" ou "bumpbumpbump" ou "sshsshssh" e por aí milhares. E andavam daquele jeito que os palhaços andam, balançando muito as pernas. Depois executavam duplos mortais e me deixavam mais tranqüilo. Eu diria que não vale a pena, mas o ESPETÁCULO (essa palavra que sempre deve ser grafada em maiúsculas) é baratinho, R$7,50, e as acrobacias são muito bonitas mesmo. E a música, saída de uma sessão de Pocahontas, compensa a hora e meia dentro do teatro. E o ar condicionado, que compensa qualquer coisa em Recife.
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